21 de abril de 2008

Amor aos livros e à São Jorge



“Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem.” (Jorge Ben em Jorge de Capadócia / Disco Solta o Pavão, 1975)

Dia 23 de abril, dia de São Jorge e dia mundial do livro, é a data escolhida pelo Sempre Um Papo há 12 anos, para celebrar o amor ao livro e à literatura. Inspirado na tradicional festa catalã, o projeto apresenta na próxima quarta-feira em Belo Horizonte uma extensa programação cultural, toda ela com entrada franca. Em moldes brasileiros e espanhóis, a colorida Praça da Liberdade, onde inclusive estão expostas algumas das belíssimas esculturas de Amilcar de Castro, empresta seu cenário para uma celebração que une arte, diversidade cultural e, porque não, generosidade.

As referências à literatura no dia 23 são inúmeras. Marca, curiosamente, o nascimento e a morte de William Shakespeare (1564-1616); o falecimento de Miguel de Cervantes, autor célebre de “Dom Quixote de La Mancha”; o “Dia do Livro” em diversos países do mundo e, dentre outros, o “Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor”, declarado pela Unesco em 1995. Juntando a tudo isso um ano de 2008 repleto de comemorações tupiniquins, dentre as quais, os 50 anos da bossa nova, está armada, para o bem de todos os credos, a Festa São Jorge de Livros e Rosas.

Enquanto os participantes trocam livros novos e usados por rosas, os quais serão doados para oito bibliotecas comunitárias de Minas, a “Corporação Musical Santa Cecília”, banda de Barão de Cocais, anima a festa, a partir das 18h, com um amplo e irreverente repertório que passa pela bossa nova e samba até o tipicamente brasileiro forró. Monitores e alunos do “Espaço Dança”, além de rodopiarem pela Praça, também vão ensinar os passos. Às 20h, a “Cia. de Dança Flamenca Los Del Rocío” celebra a cultura espanhola mostrando um dos seus grandes ícones, a dança. Durante o evento, os atores Júlio Vianna e Reginaldo Santos, integrantes do “Grupo de Teatro 4comPalito”, em cartaz no Teatro Francisco Nunes com a peça Quixote, encenam uma performance cheia de surpresas.

Em tempos de políticas controversas, celebrar a arte catalã em terra verde-amarela é um ato, em primeiro lugar, de etérea elegância. Salve Guerreiro Jorge.


Festa São Jorge de Livros e Rosas
23/04/2008, quarta-feira, entre 18 e 21h
Praça da Liberdade (s/n – Funcionários)
Mais informações: (31) 3261-1501

6 de abril de 2008

Fragmentos de uma passagem primorosa



Esticando a onda de bons encontros, descobri no final do mês passado no ateliê do artista plástico Sergio Fabris em São Paulo, uma das vozes femininas mais instigantes, que é para não parar apenas no "bela" e "forte". Desde Mônica Salmaso, em um show no final de 2006 no SESC Vila Mariana, também na capital paulista, que eu não era apresentada a uma interpretação tão comovente. Uma cantora com conhecimento, musicalidade, interpretação segura e maturidade técnica surpreendentes tem mesmo é de cantar. Para a glória de quem já a tinha visto soltar a voz nos anos 80 foi o que a belo-horizontina Gisella decidiu fazer em 2003, numa retomada corajosa, depois de mais de uma década distante dos palcos.

Hoje, inteira, como ela mesma se define, sua transição do mundo corporativo para o mundo da música, não por acaso, atende pelo nome de "Passagem", seu CD que de 'capricho da sorte' não tem nada. Ao contrário, uma reunião bem feita de gente muitíssimo especial, leiam-se, dentre outros acertos, os compositores e uma banda, composta por Wagner Tiso (piano, acordeom e, há de se dizer, arranjos e regência), Celso Moreira (violão), Zeca Assumpção (contrabaixo), Robertinho Silva (bateria e percussão) e participações de Victor Biglione (violão de aço) e Zé Renato, que canta em 'Lira do bem querer', de Celso Moreira e Murilo Antunes.

O trabalho, no qual inclusive há muito do "Clube da Esquina", embora quase todas as músicas sejam inéditas, é um convite 'simplesmente simples' para além das próprias melodias, facetas, cores, nuanças, climas e letras. No compasso do trabalho árduo, mas também das eventuais surpresas ('... E a Gente Sonhando', segunda composição de Milton Nascimento, gravada somente pelo grupo Tempo Trio, em versão instrumental, e por Alaíde Costa foi uma sugestão do próprio Bituca para a cantora), Gisella, mais do que nunca, está muito certa de que 'ainda temos tempo'. O resultado é tão adequado quanto o nome dela na história da MPB.


Repertório de Passagem:

01. AZUL DE PASSAGEM (Flávio Henrique / Márcio Borges)
02. CAPRICHO DA SORTE (Sérgio Santos / Murilo Antunes)
03. OS CAFEZAIS SEM FIM (Wagner Tiso / Fernando Brant)
04. CANTO DE DESALENTO (Toninho Horta / Rubens Théo)
05. CHORO PRA ALICE (Celso Moreira / Fernando Brant)
06. BIROMES Y SERVILLETAS (Guardanapos de papel) (Leo Masliah / versão: Carlos Sandroni)
07. AINDA TEMOS TEMPO (Renato Motha / Malluh Praxedes)
08. CONTOS DA LUA VAGA (Beto Guedes / Márcio Borges)
09. MARACANÃ (Tavinho Moura)
10. LIRA DO BEM QUERER (Celso Moreira / Murilo Antunes)
11. SIMPLESMENTE SIMPLES (Ladston do Nascimento / Antônio Martins)
12. ISADORA (Manoel Musa / Antônio Martins)
13. ...E A GENTE SONHANDO (Milton Nascimento)
[Foto: Graziella Widman]

3 de abril de 2008

Muito além do amor



Numa segunda-feira. Ela, uma morena de olhos envolventes, desses que acariciam ternamente sem reserva, lábios inquietos, ventre bem feito e corpo aceso. Ele, um homem de cuja estampa era incomum e os sorrisos demasiados. Ao se aproximarem, numa seqüência em que os sentimentos pareciam estar estupidamente em câmera lenta, voltaram-se um para o outro como se aquela cena fosse fruto de uma imaginação imprudente, um lapso irremediável. Eles se olhavam, como a propor que a intimidade afastada jamais havia sido perdida. Miraram-se como se aquele encontro fosse uma representação de todos os incontáveis encontros que não existiram nos últimos catorze meses. Passou-se, num instante pequeníssimo, muito de uma vida que deixara de ser. A diplomacia pregada ali, inclusive, era um instrumento de defesa, uma pura e ingênua encenação.

Ele quis conferir um tom pessoal à conversa tímida que se estendia. Ela, por sua vez, não seguia adiante da forma que sua vontade, em outras ocasiões, atribuiria. E embora gestos simpáticos lhe fossem peculiares, pouco mais de meia dúzia de palavras eram ditas com certa naturalidade. Nada, porém, poderia evitar a reincidência daquela ordem várias vezes contada em tantas histórias. Viu-a assim, real e próxima, e embaralhada com tanto silêncio. Não havia nada a fazer a não ser aguardar pela espontaneidade que sempre favorece àqueles que amam sem pudor. Seus olhares pareciam, propositalmente, paralisados numa direção em que cruzá-los não seria possível. Em pouco tempo, pois o fato de saberem-se ali lado a lado levavam-nos para o caminho menos equívoco. Sabiam também que todo aquele controle, em segundos, seria posto à prova.

Foi, então, que em pouquíssimos minutos, ele voltou-se para ela e acariciou suavemente seus cabelos negros, que estão sempre a balançar para todos os lados. Sua boca busca seu ouvido para um pequeno segredo. Enquanto ela encaixa o pescoço e repousa seu rosto sobre o ombro dele. Procuraram certamente por outros ombros, mas aquele longo e meticuloso abraço de ternura não enganava nem o mais distraído. Os joelhos a se tocarem e os olhares a percorrerem vagarosamente as expressões, suspeitíssimos de que ali estavam os mais sinceros carinhos. E quando se olharam nos olhos da forma mais intensa, refletiram cada um consigo que eram exatamente aquilo que pensavam um do outro quando o amor se confirmou pela primeira vez.

De repente, com o hálito de vinho francês, que por sua vez sobreleva e exulta, eles se movimentam, se misturam, se confundem, se entregam à ardência e explosão do corpo que voraz ganha som, descem-lhe às entranhas, penetram-lhe os ossos e inundam-lhe por completo. Fecham os olhos como se pudessem prolongar a sensação de prazer, de encanto, de deleite. Era aquela sua amada. Era ele por quem esperara desde sempre. Estavam ali as formas recriadas e ligadas pelo limite inexistente.

Deles restava apenas o eterno grito (...)

[Foto: gettyimages]

1 de abril de 2008

Mondolivro, o Blog Sonoro da Literatura


A idéia é gostosa. Um blog sonoro, no qual assuntos relacionados com o mundo do livro são notícia. No ar há pouco mais de uma semana pela Rádio Guarani, o "Mondolivro", concebido e produzido por Afonso Borges, criador do "Sempre Um Papo", considerado um dos maiores projetos de incentivo à leitura do país, surgiu de um desejo antigo de Borges de levar para o rádio histórias divertidas e criativas sobre o universo literário.

Desmistificar a literatura e levá-la para muito mais perto do público é o que tem feito Afonso há mais de 22 anos. O "Mondolivro", que conta com o patrocínio da Patrimar, dona da idéia precursora de construir bibliotecas em prédios residenciais, é a mais nova ação nesse sentido.

Uma sugestão de leitura. Festivais literários pelo Brasil e mundo, feiras do livro, salões, bienais. Notícias em primeira mão sobre autores, seus novos livros, o que estão fazendo, onde e porquê. Histórias curtas, casos sobre livros e escritores. Curiosidades envolvendo o livro e a transversalidade com outras artes – cinema, teatro, música, artes plásticas. Tudo isso, e mais o que der na telha, é o que tem contado Afonso Borges aos ouvintes, diariamente, na Rádio Guarani de Minas Gerais (96,5), às 9h10 e 18h30. Ouça aqui duas edições do Mondolivro.

30 de março de 2008

Desejo pra mim


Pois no conforme vejo,
que de repente aquele não era meu
lugar,

não era tempo de chuva,
tampouco de dias nublados.
Mas quem ali ousava em querer
alguma natureza palpitante ou
pedir licença pra ver o sol pouco ocluso?

Peço a quem puder socorrer minha
fraqueza,

que abrevie esses dias e me conceda
um rosto sem dor e sem impaciência.
Que cesse de uma vez minha culpa vã
que faça partir todos os desesperos noturnos
e terrores diurnos.

Que a vida é breve.
E um dia todos os versos serão perfeitos.

23 de março de 2008

Em "Chega de Saudade" é melhor ir além, nem que seja em uma só noite



O novo filme da diretora Laís Bodanzky, Chega de Saudade, certamente deve estar colhendo vários elogios nessa sua recente temporada de lançamento. Além do roteiro de Luiz Bolognesi muito bem alinhado, a fotografia do mestre Walter Carvalho desconcerta. Mestre como a poucos pode-se conceder essa façanha. Muito mais do que um bom artifício técnico, a fotografia de Carvalho no segundo longa de Bodanzky (o primeiro foi “Bicho de Sete Cabeças”), se apresenta como personagem. E sua boa interpretação, mais os rodopios da câmera, redefinem por completo o que poderia ser ‘simplesmente’ um bom filme. Mais do que isso, é uma verdadeira ode ao empenho, ousadia, labuta, risco, paixão pelo cinema!

A diretora, quando participou da pré-estréia em Belo Horizonte, dentro da programação do projeto Sempre Um Papo, disse aos espectadores que parir aquele filme havia lhe custado noites longas de insônia. E perguntada sobre a diferença do “Chega de Saudade” e “Bicho de Sete Cabeças”, ela foi enfática: “Por incrível que pareça, Chega de Saudade foi muito mais difícil de fazer. A relação entre os personagens é muito mais complexa, sem contar a própria dinâmica do filme.” Imagino que não tenha sido mais difícil, porque Laís, com calibre para isso, se cercou de gente boa demais. Além de Carvalho e Bolognesi, estão Paulo Sacramento na montagem, Marcos Pedroso na direção de arte, BiD na trilha sonora (uma delícia!), Caio e Fabiano Gullane na produção, dentre outros.

Os personagens, vibrantes até quando quietos, parecem se valer da máxima de que a vida é agora. Todos, exatamente todos, querendo tirar uma casquinha do tempo presente. Para tanto, emoções à flor do baile, já que toda a história se passa em um numa única noite. Ao som da banda ‘Luar de Prata’, na qual Elza Soares e Marku Ribas são os crooners, Tônia Carrero, Leonardo Villar, Cássia Kiss, Stephan Nercessian, Betty Faria, Mirian Melher, Maria Flor, Paulo Vilhena, dentre outros, sacaram que os personagens a que dão vida não estão ali por acaso. Afinal, é melhor ir além, ainda que em uma noite apenas.

Assim como fizeram os últimos longas sanguinários do cinema nacional, espero que “Chega de Saudade” possa levar milhares de pessoas às salas de cinema. Além disso, que a nova obra de Laís possa incitar a discussão de que, ao contrário do que ainda se diz, nosso cinema há tempos atravessou as fronteiras da Cidade de Deus.


Em cartaz em Belo Horizonte:


Revista Kino



Em meio a tanta picaretagem no cenário midiático, a Revista Kino (cinema em alemão) é uma boa surpresa e, oba!, tupiniquim. A idéia segue o que já deixou de ser uma tendência no mundo global (e pirado!) de informações de todos os tipos, formas – simultaneamente em todos os cantos. Ufa! Na real, embora virtual, prega-se a participação livre e coletiva de quem tem algo para mostrar e que, óbvio, faça parte do contexto do tema. Valem ilustrações, fotografia, grafite, textos... Simples. Se gostarem, você ajuda a construir a Revista e aparece para esse mundo cibernético cheio de possibilidades.
A cada dois meses, uma película será o assunto da vez. Na edição atual, que é a quarta, quem está na tela é a obra-prima, frenética, Corra, Lola, Corra, do diretor alemão Ton Tykwer. “Volver”, do Almodóvar, já em construção, é a próxima.

Legal.